Irmandade de São Benedito

IRMANDADE DE SÃO BENEDITO

“Tu que pela claridade

foste no mundo o luzeiro

compadece-te Senhor

deste povo brasileiro”.

​(Excerto, do hino em louvor a São Benedito).

​O culto a São Benedito, propagou-se a partir do final do século 16. Natural da Sicília, o preto humilde, analfabeto e santo, tornou-se, de repente, popular entre os negros e mulatos do Brasil.

​A Irmandade de São Benedito ( d’Ajuda), porque existia a outra Irmandade de São Benedito do Colégio de Porto Seguro), diferençava da Irm. de N. S. d’Ajuda, em dois aspectos. Dela participavam homens e mulheres. Não havia discriminação, e seus integrantes eram todos moradores do Arraial. Surgiu aqui há mais de um século e dizem, alguns remanescentes, que o “espírito” de sua formação veio procedente de Caraíva. Seus fundadores, eram todos daqui: João Henrique (comerciante), Fabriciano (pescador), João Prefeito (pescador), Graciliano (pescador/roceiro), Argemiro e Dorico, que foi o último procurador oficial da Irmandade.

​Representava, de um modo geral, o espírito associativo da comunidade, da povoação que se agregava e se formava sob às ordens da Igreja, que sempre foi aquilo que disse Gilberto Freire: “desinfetório ao serviço da saúde moral da colônia”. ( 23 ).

​Embora uma associação de formação religiosa, envolvida pelas ordenações da Igreja, deu a oportunidade aos ajudences, no sentido de uma visão cooperativista entre eles. Voltaram-se para os problemas que encareciam à necessidade do lugar, como a construção do “Cemitério de São Benedito”, a preservação das “casas de Nossa Senhora” e até mesmo da ajuda mútua, a real de toda a ajuda.

​Quando morria um irmão, os demais membros da Irmandade saíam todos vestidos de ÓPA (camisa-manta de cor avermelhada, uma herança legada pelos “irmãos de confrarias religiosas” das províncias de Portugal), conduzindo-o da Igreja até o cemitério, num ritual em que o caixão era levado de mão-à-mão, até o local do enterro. Dois irmãos iam à frente, com tochas acesas e a cruz. Quando faleceu dona Mariá – saudosa criatura que com suas mãos iluminadas tantas crianças salvou e benzeu com sua reza, representantes-remanescentes da Irmandade, prestaram-lhe significativa homenagem, vestidos com a ÓPA.

​A Igreja, que sempre usufruiu desse sincretismo, foi até onde lhe pôde convir, pois tinha o controle de todo o apurado e dos óbulos doados pelos fiéis, pagadores de promessas. O que o arcebispo de Salvador fêz com a tradicional Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, proibindo uma procissão que se repete há duzentos anos, aqui na Ajuda a “Irmandade de São Benedito” sofreu a mesma proibição há mais ou menos cinquenta anos. Sargento Bacelar-já falecido foi quem decidiu resolver o primeiro impacto entre a Igreja e os devotos da Irmandade, quando declarou: “Solta o santo! Faz outro! e tira esmola!”.

​Mas, de fato e de direito, a Irmandade acabou quando Zé Fernandes entregou a chave ao padre Emiliano, um mineiro de Itinga. Quem o substituiu foi o Frei Bernardo, que, segundo dizem, tinha por hábito fumar ponta-de-cigarro apanhado à mão pelos caminhos e de que êle jogava o “pinico” defronte à casa do Zé Alves.

​A Esmola de São Benedito ou o Tira-Esmola, ou ainda a Folia-de-São Benedito, é como chamam quando a Irmandade sái à rua, logo após a celebração da missa. Saindo da Igreja, a festa se ajeita mais ao populesco, quando ganham à rua tocando, acompanhados de curiosos e adeptos, num furor intenso, onde rola muita cachaça e se assume como que uma excitação coletiva, no aspecto e nas vozes dos brincante. E vão de casa em casa, fazendo a “visitação” do santo, que é carregado por alguém devoto ou membro da Irmandade:

“Onde está o dono da casa

Por êle perguntou eu

Ou ele não está em casa

Ou me viu e se escondeu…”

​Assim como há o dia da procissão, o dia da Esmola de São Benedito é consagrado à folia e à arrecadação de dinheiro, durante os dias da festa. Notório a figura do Tesoureiro da Irmandade, que saiam sempre vestidos de ÓPA.

​A Folia de São Benedito ao que parece é a manifestação mais autêntica, o furor exaltado da cantoria de maior expressividade de todas as tradições que vagamente aqui ocorrem. Por ocasião da “visitação” que fazem de casa em casa, uma verdadeira procissão sacro-pânica, onde chegam com festa, fé e sêde de cachaça pra “acalmar” a euforia. Só que os versos e os refrões são escassos e muito repetitivos. Além disso, misturam cantorias de outros folguedos, até mesmo, do boi-duro:

“êh! êh!

v’ambora, v’ambora! (bis)

Carregadeira v’ambora”

“Cadê o dono da casa!?

-Ah, meu boi morená!

-ele não está em casa

-Ah, meu boi morená!

-ele correu e se escondeu!

ah meu boi morená!…”

“aié! aiá!

-tá te chamando, cumpade (bis)

pra vadiá!”

“papai, mamãe

nunca peguei no alheio

quando a polícia chegar (bis)

tira o meu nome do meio!…”

​É como dizem os mais velhos: “Hoje não tem mais Irmandade, só os festeiros!” Pena que essa associação mais importante do povoado tenha sido desfavorecida, essa cooperação mútua, esse cooperativismo cabôco, de crença, de irmandade, mesmo!

Pinheiro Pucu, 1993

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