Historinha do Arraial: A Romaria

A ROMARIA
“Eu sou pastora, sou romeira!…
Viva Jesus Cristo lá no céu!…”
A Romaria que ao longo do tempo abriu escala à vida econômica da Igreja e dos moradores do povoado passou para o segundo plano, com o advento da indústria-dos-canos-de-escapes – o Turismo, que, desde os anos 70, de repente tomou conta. De pousada em pousada o Arraial se preparou pra faturar seu mais novo e rendável negócio: os alugueis das temporadas do verão. Abriram os dentes pra os turistas e irmão fechou a boca pra irmão. A concorrência arrancou-lhes alguns brilhos. Viram-se eles mesmos se defrontando. Se entenderam menos. Pouquíssimos não se entregaram ou resistiram, seguiram cegos, os rastros lucrativos. Menosprezaram a Romaria e dispararam a atenção para com o Turismo.
Os romeiros passaram a ser um vexame, uma multidão de fiéis, chegando, sujando tudo, pinxinxando tudo, assombrando com o quadro real da miséria, diferente do turista que paga caro, chegado ao luxo e às assepcias.
Mesmo assim, não deixou de ser uma fonte de renda considerável à população, que, afora o Turismo no verão, tem a safra da festa da Padroeira no mês de agosto. A Igreja, que administra o contrôle geral da grande festa, recebe dinheiro e oferendas dos devotos e ainda lhes cobram a dormida, nas suas casas construidas com dinheiro das Irmandades de antigamente.
Aos poucos a industria de canos-de-escapes superou a dos 30, 40 mil romeiros que há dez anos chegavam aqui pras festividades de tradição secular – a Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda e sua “Fonte Miraculosa”. Recebiam até mesmo, a visitação de outras romarias, como a de Prado, que aqui esteve pela última vez, em 1986. Cerca de 60 pessoas (entre homens, mulheres e crianças) alguns atrelados nos jegues, útil serventia desse animal, levando mantimentos e até crianças-de-colo, tão simplesmente agasalhados e bem. Na maioria, negros e mula-tos, uma comunidade em grupos, romeiros/roceiros, com seus animais amigos e a fé em Deus. Nesse agosto de 86, registrei o diálogo entre pai e filho:
“- Josué! Ó Josué! olha a burra!
- Descansa ela! Descança, ela!
- Chega lá na praia, descança ela!
E, diante do meu olhar e presença, uma advertência jocosa, de pai para filho:
“- Cuidado, menino! o jegue te pica!”
Moradores dos mais antigos contam que a festa da Romaria chegava a encher de um a dois sacos de moedas. Parte desse apurado era aplicado nas construções das chamadas “Casas de Nossa Senhora”, que abrigavam os cansados romeiros, sem cobra-lhes nenhum centavo.