Historinha do Arraial
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Livro do Jornalista e Escritor Pinheiro Pucu:
O Arraial pra mim tem o quadro real de amor e dor. Antigo e novo, transfigurado pela sua difícil marcha no tempo, na sua transformação e sobrevivência, coube-lhe a aparência real e irreal, refletida no espelho azul, do magnetismo do chamado paralelo 17. Tem dois lados: um farto e outro escasso – herança carmática do “Velho Mundo”.
Seus moradores mais antigos, descentralizados dos costumeiros encontros coloquiais, retraíram-se uns; outros cruzaram os braços, apreciando a enorme onda de “gente de fora” a se espalhar, fingindo que se dão bem com o impertinente barulho promovido pela Indústria-de-canos-de-escapes. Só resmungam, só suportam; a zoada, a poeira e o lixo. Ninguém reclama em voz alta, porque o Turismo é a base da sobrevivência econômica dos seus moradores e a gula de quase todos os pousadeiros que aqui chegaram (e chegam!) “arcondicionando” e “piscinando” o ambiente edênico, o paraíso tropical. Olhamento devassado, assistindo às construções do a invasão dos “outros”, com o sentimento devassado, assistindo às construções nos espaços que outrora foram seus. A derrubada do verde, de cada um que chega, pensando num cômodo a mais. Pensando pousadas, suando na brisa. Arreganhando os dentes sem cessar durante todo o verão.
Dona Naninha, com seus oitenta anos, denunciou a matança ecológica do Barbatimão, quando saiu percorrendo a periferia do lugar, em busca do remédio pra sarar uma enfermidade de sua nora e não o encontrou: “Tinha um pé ali, na ladeira do Mucugê, e não tem mais. Fui pelo caminho da praia, também não encontrei nada”. E num esforço de memória, recorda de mais um que havia adiante, não pode a ele ter acesso, pois o mesmo estava dentro de um quintal, “na pousada do Francês!”.
Sob o impacto da chegada dos turistas a partir dos anos 70, o povoado se avexou, dando início à uma disputa interna e a choques entre situações desestruturadas de ambos os lados. Mas logo A’juda ganhou fama de “internacional” e começaram a surgir os primeiros negócios em dólares e a sua rua principal-a antiga Rua da Palha-passou a ser Chamada de broduéi:
“quem diria, quem diria,
uma rua chamada broduéi
no extremo sul da Bahia…”
O nome foi dado há uns 13 anos, por uma crioula chamada Loreta da Martinica, que, embora com este nome latino-américa, era daqui da Bahia. Isto, por ser o point mais frequentado e de maior agito. O nome pegou, como alusão à mais famosa rua de Nova York, a Broadway.
Aos poucos, os mais antigos que ali tinham suas casas de moradia, foram cedendo, juntamente com outros que moravam na periferia do centro distrital (Rua do Campo e adjacências do Cemitério de São Benedito), foram como que arredados pela força do dólar e do avanço urbanístico, inevitável.
Hoje, na broduéi, só resta uma casa de taipa onde mora a velha Colinha, comprimida pelos sons altíssimos das casas noturnas, com seus olhinhos acesos e seus tímpanos apagados.
Tão logo ocorreu a primeira mudança no espaço urbano dos ajudenses, que, por força desse avanço, criaram o seu primeiro bairro, o “Bairro Novo”, à uma distância de dois quilômetros…. Nunca mais se há de ouvir uma expressão como a da tia Neusa, dias antes da mudança da periferia central d’Ajuda:
Nêga, lá tem fogo aceso?Tem, sim!Manda um tição pelo o Zézinho!…”